De pele engelhada como uma casca de maçã amarela e velha. De olhos cavados e profundos, escuros como duas pequenas crateras. Cabeça prateada pelo pouco cabelo que nela pousava ainda, com aspecto aveludado e escasso. Foi assim que o vi. Com aquele olhar abandonado, procurando no gesto do cigarro uma companhia com quem conversar. Distinto, bem vestido e com aspecto cuidado. Imaginá-lo-ia, se me permitissem, advogado. Pela sua postura, pelos gestos. Pela linguagem que mal ouvia e até pela própria expressão! Advogado... E velho!Assim nos cruzávamos todas as semanas, em mesas distantes. Mas o meu olhar não desprendia do seu. Aquela solidão triste, perdida num tempo já esquecido. Perdendo o olhar por qualquer canto, sem direcção. Não tinha para onde dirigir a voz, não tinha onde pousar o olhar. Não tinha com quem partilhar o quanto sabia! Vagueava em pensamentos como um pardal, que voa sem destino procurando apenas o seu pão que lhe mantém a vida. Ele era velho! E procurava quem lhe mantivesse a vida, o seu pão capaz de alimentar a esperança que naqueles olhos faltava.
Sentava-se sempre de frente para o resto das pessoas, e de cada vez ficava um lugar vago na sua mesa. Comia sozinho, num acto triste de profunda amargura, num terramoto de sentimentos solitários que se exprimiam nos movimentos rápidos e descontrolados das suas mãos. Tremia incondicionalmente, sem vergonha! Deixava escapar sorrisos confortantes procurando na simpatia de todos uma ténue resposta de ingrata companhia enganada. De uma educação extrema, e uma simpatia contagiante. Mas numa solidão tão profunda!
Olhava-me vezes sem conta, como se de alguma forma pedisse ajuda. Ajuda para ocupar com pequenos gestos esse poço profundamente cavado de ausência extrema! Como se me dissesse por palavras trocadas num breve silêncio que não tem nada. Não tem nada, porque não tem ninguém!
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Por semanas não voltei a essas mesas, distantes.
O tempo passou... Tempo estranhamente também ele distante como as mesas, o que recordo agora. Apenas porque lá voltei. Porque essas mesas distantes estavam desocupadas. Eu ocupei o espaço que em tempos, naqueles dias, me pertencia. Mas também eu, agora, senti que o meu olhar vagueava... Não sei por onde... Talvez nessa distância, à procura de um velho de pele de casca de maçã engelhada e amarela de quem ninguém iria sentir a falta. Um velho de olhos cavados e profundos, negros como uma cratera, que faltava ali, agora! Um velho de cabeça prateada, e de olhar abandonado que não ocupava o lugar solitário que se tornara já seu.
Porque nesse dia, de alguma forma, diminui a sua solidão naquele momento, diminui a distância entre as mesas. Porque eu senti a sua falta! Mas nesse momento ele não mantinha já a réstia de esperança que o alimentava, ele não procurava olhares nem ouvidos atentos... Não tinha já a pele engelhada e aqueles olhos cavados e profundos.
Nesse momento, em que eu o procurava ele não me procurava a mim... Nesse dia era tarde, ele já lá não estava.
E talvez este seja o destino de todos nós!
Um beijo,
*Sónia*






